O Barão de Münchhausen

Capítulo I - Da viagem à Rússia (parte 3)




Não é meu intuito, amigos, encher-lhes a paciência com detalhes sem valor algum da nossa brilhante capital russa. Prefiro falar-vos das festas e exercícios cavalheirescos a arriscar tiradas pedantes em grego ou latim ou outras piruetas típicas de franceses metidos a espirituosos.


Viajei à Rússia para ocupar o cargo de general de uma das divisões de seu magnífico corpo militar. Como levou algum tempo antes que eu pudesse entrar em serviço, tive, durante uns dois meses, o lazer e a completa liberdade para gastar meu tempo e meu dinheiro da maneira mais nobre possível: passando muitas noites jogando e erguendo copos.


O clima e os costumes daquela nação concediam à garrafa uma importância social das mais nobres, o que não ocorre na nossa sóbria Alemanha. Encontrei na Rússia pessoas que são atletas consumados no exercício de levantamento de copos; mas todos não passavam de pobres diabos ao lado de um velho general que jantava conosco na mesa comum.


O bravo homem havia perdido a parte superior do crânio numa batalha contra os turcos; por isso, sempre que aparecia um estranho, ele se desculpava de mil maneiras por não poder tirar o chapéu à mesa.


Tinha como hábito, enquanto comia, virar algumas garrafas de aguardente e, como tira-gosto, esvaziava uma ou duas garrafas de legítima vodca russa.

Apesar disso, era impossível notar o mínimo sinal de embriaguez em sua face.


A coisa intriga, amigos; sem dúvidas.


Porém descobri a chave do enigma. O general costumava, de vez em quando, tirar o chapéu; observei freqüentemente esse gesto, procurando alguma ligação: acabei notando que junto com o chapéu ele erguia uma placa de prata que protegia seus miolos. E então a fumaça das bebidas que atingiriam suas idéias se desfaziam em nuvens logo acima de sua cabeça antes que lhe atingissem a consciência. Estava resolvido o enigma.


Para ter certeza do que especulava, postei-me bem atrás do general e, no momento em que ele levantou o chapéu, aproximei um pedaço de papel em chamas e todos na taberna puderam vislumbrar um espetáculo inédito e admirável. Eu transformara em coluna de fogo a coluna de fumaça que subia da cabeça do velho. E mais: os vapores que se emaranhavam entre seus cabelos também incendiaram, formando uma auréola digna dos mais nobres santos. O general notou minha experiência mas não se zangou, ao contrário, nos permitiu por diversas vezes repetir tal exercício que lhe dava um ar dos mais admiráveis possíveis.



fonte:

Grandes obras da cultura universal - Volume 15. editora Villa Rica - Belo Horizonte, Brasil 1990

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