O Anjo



“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”

Walter Benjamin

 
Eis o anjo da história.
 
Ele sempre quer se afastar do passado? Será que o olhar furtivo para trás não revela uma vontade de, quem sabe, voltar para um lugar melhor?
É esse o seu maior problema: a história - o anjo da história - apesar de ter asas, não viaja para onde deseja. É arrastado ao sabor dos ventos, sem controle, sem direção; tendo que aceitar, se adaptar a novos lugares e tempos e, por que não, lamentar o que já foi bom.
 
A história é trágica. É uma máquina que todos nós construímos sem saber exatamente com que finalidade estamos fazendo aquilo, mas é nossa obrigação, nosso fado - fazemos até contra a nossa vontade. Não podemos fugir. Quando colocamos uma peça e pômo-la a funcionar e interagir com as outras que já estavam lá observamos um movimento perfeito, límpido, sem ruídos, mas ainda sem utilidade aparente. Mexemos em uns botões, puxamos alavancas, encaixamos uma peça desproporcional apenas procurando emoção: a máquina pára, volta a funcionar no sentido contrário. Fogo! Desespero! Arrependimento! Batemos nela com ira, medo e esperança de consertá-la: ela pára novamente e volta a funcionar em direção ao futuro, mas nenhuma peça é removida. Não podemos interrompê-la nunca, apenas observar seu funcionamento e aumentar o seu tamanho, procurando cuidar de todas as engrenagens com prudência para que nossos filhos tenham mais facilidade para continuar sua construção no futuro - ou que pelo menos o façam com alegria.

Um comentário:

Raíssa Falcão disse...

comentário perfeito,Jivago!Parabéns pelo blog!Beijos!:)